Desabafos p’las Annapurnas VI e VII

-Thorung High Camp-  (4800m)

17/10/2017

Hoje era uma distância curta, mas íamos subir até aos 4800m logo já sabia que de fácil nada teria. Hoje ficamos no Campo alto de Thorung pois amanhã é o dia D, cruzar o passe.

Fui devagar, ao meu ritmo. As subidas já em certa altitude cortam a respiração e cada passo é um desafio.

Antes da maior subida parei uns 30 min e comi um chocolate que ”soube a pato”.

Estar em sintonia com a natureza ajuda a ultrapassar cada desafio. O silêncio, o vento, os pássaros.

Parar, respirar olhar em volta e voltar a caminhar.

‘’ Que sorte tenho em estar aqui’’

Que feliz sou quando entregue às montanhas, ao mundo virgem e ás pessoas de alma desprendida.

Por mais que custe a subida, o topo é vitória, porque eu consegui! E quando rodeada de pessoas que te motivam mais fácil se torna.

À chegada já estava Laura, Juan e Rámon a esperar com um sorriso e um abraço.

Partilhamos vitórias e sofremos juntos.

Foi um dia de volta da mesa, rodeada de pessoas que aquecem a alma!

Como vou guardar estes ninhos e passarinhos no meu coração.

(Espanhóis são ninhos e passarinhos, expressão usada pela minha mãe porque falam muito)

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-Thorung la Pass-

(5455m)

18/10/2017

O DIA D

Chegou o dia mais esperado, cruzar o ponto mais alto do circuito da Annapurna.

Uma subida que podia correr mal, uma montanha que podia ter ficado por escalar. Um sonho que poderia ficar por cumprir.

Mas em primeiro lugar estamos nós e a nossa saúde.

Foi uma subida de 5km, onde escalaria quase 1000m, o ponto mais alto em que estive na minha vida.

Coragem e força de vontade, iniciei a subida, os primeiros metros são complicados, o corpo está frio e a habituar-se ao ritmo. Depois de aquecido pensava que seria mais fácil, mas não. Era só subir, e cada passo custava mais que o outro, a respiração tinha que ser controlada e as paragens ao longo do caminho para acalmar o batimento cardíaco, pois por vezes parecia que o coração ia saltar pela boca.

Assim que ia subindo senti a pressão na cabeça e o estômago a dar voltas, aí tudo complica. A cabeça parece que vai rebentar cada vez que subo uns metros.

Que jogo físico e psicológico constante.

‘’Faltam 10 min’’

E não parei de subir a minha montanha, de alcançar o meu objectivo. E já a chegar avisto laura de sorriso estampado no rosto e de braços abertos para me apoiar! Não consegui segurar as lágrimas, chorava de felicidade emoção e cansaço.

Foram tantos dias a caminhar, a partilhar e a chegar áquele ponto foi escalar a montanha que tanto desejara e poder partilhar a dor, o sofrimento, a emoção, a felicidade com todas estas pessoas tornou a caminhada tão mas tão mais rica.

Subi com a Eva e o Israel que me motivaram até ao fim!

Conseguimos! E a vitória partilhada sabe tão melhor!

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Uma grande família! 2 Argentinos, 1 Portuguesa, 1 chileno, 2 Catalães, 2 Madrilenhos e 1 Asturiano.

Testar o corpo e a mente desta forma foi dos maiores desafios até hoje, e este desafio fortaleceu algo que estava por descobrir em mim.

A descida foi dolorosa, a cabeça latia a cada passo e os joelhos reclamavam foram 3h de descida a pique. A Eva e Israel estavam comigo, estava com sérias dores de cabeça e tinha que parar imensas vezes, acompanharam-me até ao final. Como pessoas que ao cruzar um olhar podem não nos dizer nada e depois tornam-se companheiros de uma viagem que fica marcada para a vida?

Mais uma vez, exaustivamente feliz!

E estou inexplicavelmente de coração cheio.

(No topo só me lembrava de Hakuna Matata, a vida sem problemas!)

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A altitude fez-me mal à cabeça e pousei com a bandeira ao contrário!

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